Fraturas Rostrais em potros

 

Os equinos estão propensos a traumas na cabeça, sendo as fraturas envolvendo mandíbula, maxila e osso incisivo muito comuns, resultantes de coices, colisões, quedas e aprisionamentos da porção rostral da mandíbula ou incisivo em cercas ou portas1.

A idade com maior frequência de ocorrência deste acidente é na fase de potro entre 2 e 4 anos, quando muitos passam a ser mantidos em cocheiras por períodos prolongados, em função de doma e início das atividades esportivas. Nesta idade, os potros apresentam uma curiosidade aguçada e costumam mordem objetos como forma de interagir, contudo, algumas vezes, no momento desta ação, são surpreendidos e realizam um movimento abrupto de fugir da posição que se encontram, e justamente este objeto pode então servir de alavanca para uma fratura rostral2, conforme ilustrado na Figura 1.

Figura 1: animal mordendo a porta, objeto que poderá servir de alavanca em caso de movimento abrupto.

Para que possa ser feito um tratamento adequado destas fraturas, é de suma importância o conhecimento da anatomia dentária, bem como da embriologia e o processo de formação dos dentes, pois este tipo de fratura e nesta fase da vida do cavalo, há o envolvimento dos dentes incisivos em diferentes etapas de formação.

O dente incisivo do equino tem sua odontogênese e mineralização já na fase fetal do equino, tratando dos dentes decíduos. Já o dente permanente possui uma odontogênese prolongada, e que envolve diversos meses da vida do potro. A fase de germe dental representa a forma embrionária do dente, a partir do qual acontecem multiplicações e diferenciações celulares que geram os diferentes tecidos dentários (esmalte, cemento e dentina). A mineralização do dente acontece na fase final da odontogênese. A vascularização dentária neste processo representa o ponto chave para uma perfeita formação dental, e ocorre por um leito capilar, sendo o “dental sac” (localizado entre o dente decíduo e o permanente) a principal fonte vascular. Uma destruição precoce deste sistema de nutrição celular compromete todo processo de formação do dente permanente 3,4,5.

Dessa forma, fica evidente que uma fratura traumática em um potro, que avulsiona rostralmente os dentes decíduos, irá expor o “dental sac” ou mesmo lesá-lo diretamente pelo trauma, por consequência há uma interrupção da vascularização do germe dental em formação.

Nestes acidentes traumáticos que envolvem os dentes incisivos decíduos, não basta apenas o tratamento de redução da fratura, mas sim um acompanhamento da evolução do quadro. Somente em médio prazo poderá ser dado um prognóstico sobre a odontogênese dos dentes incisivos permanentes e se há um foco infeccioso nos dentes embrionários. O exame radiológico representa a forma elementar de diagnóstico para estes quadros, e deve envolver posicionamentos intraorais (dorsoventral/ventrodorsal e oblíquas) 2. Sem este tipo de exame pré e pós tratamento, não é possível obter-se um diagnóstico conclusivo da extensão da lesão, nem mesmo sobre a sua evolução.

Figura 2: Radiografia ventrodorsal dos incisivos superiores de um potro com 2 anos de idade com destaques em colorido: azul: germe dental dos Triadan 101 e 201; amarelo: germe dental dos Triadan 102 e 202; verde: germe dental dos Triadan 103 e 203.

CASO CLÍNICO

Um equino, da raça crioula, macho, com 2 anos e 1 mês de idade sofreu uma fratura rostral com avulsão dos dentes decíduos incisivos. Foi remetido à Clínica Equident, após 6 horas do acidente.

No exame clínico, foi observada fratura do osso incisivo no lado esquerdo, com avulsão dos dentes incisivos Triadan 602 e 603 e fratura dos respectivos alvéolos dorsalmente. A porção palatal do osso incisivo fraturado expôs o dente permanente Triadan 202 em odontogênese, conforme Figuras 3 e 4.

No exame radiográfico, foi observada linha de fratura envolvendo a porção ventral do alvéolo dos dentes Triadan 602 e 603, e fratura da porção apical do dente 603 (Figura 5).

Figura 5: Radiografia intraoral dorsoventral dos incisivos superiores.

Como tratamento foi realizada a redução da fratura usando técnica de cerclagem, com animal sedado com cloridrato de detomidina (0,01mg/kg) e em posição quadrupedal. Para proteção do fio de aço foi utilizado metilmetacrilato (Figura 6). Foi feita remoção da oclusão dos incisivos do quadrante envolvido. Como terapia medicamentosa, foi utilizado cetoprofeno oral (0,016mg/kg), uma vez ao dia, por 5 dias e doxiciclina oral (20mg/kg) uma vez ao dia, por 15 dias. Lavagem diária local com solução de clorexidina 0,2% até a cicatrização da mucosa gengival.

Figura 6: cerclagem e aplicação de metilmetacrilato como proteção.

A revisão do paciente foi feita em 50 dias após o evento inicial, quando então foi removida a cerclagem. No exame físico, foi observada fístula periodontal em Triadan 602, conforme Figura 7. A radiografia demonstrou áreas de lise e reabsorção dentária envolvendo o dente permanente em formação Triadan 202, caracterizando uma infecção localizada neste dente (Figura 8 e 9).

De acordo com os achados clínicos e radiológicos, optou-se pela exodontia dos dentes Triadan 602, 603 e germe dental 202 e 203 (Figura 10). Foi aplicado um curativo de gaze local embebido em pasta de iodofórmio e suturado na gengiva. Este curativo permaneceu por 7 dias. Após este período foi feita remoção da comida do local e limpeza com solução de clorexidina 0,2% duas vezes ao dia. Como terapia medicamentosa, foi repetido o mesmo protocolo descrito no momento do reparo da fratura. Em 15 dias a cicatrização era evidente (Figura 11), tendo-se completado com 20 dias.

Figura 10: germe dental do Triadan 202 e 203 extraídos e infectados.

Figura 11: cicatrização praticamente completa após 15 dias da extração dos dentes Triadan 602, 603 e germe dental 202 e 203.

  1. Wilson, D. A. 57th Annual Convention of the American Association of Equine Practitioners – AAEP – How to Repair Rostral Mandibular and Maxillary. (2012).
  2. Henninger, R. W., Abvp, D., Acvs, D., Beard, W. & Acvs, D. Rostral Mandibular and Maxillary Fractures : Repair by Interdental Wiring. 43, 136–137 (1997).
  3. Dacre, I. T. A pathological, histological and ultrastructural study of diseased equine cheeck teeth. (University of Edinburgh, 2004).
  4. Klugh, D. O. Anatomical Characteristics of Equine Dentition. in Principles of Equine Dentistry (org. Klugh, D. O.) 27–48 (Manson Publising ltd, 2010).
  5. Dixon, P. M. & du Toit, N. Dental Anatomy. in Equine Dentistry (org. Easley, Jack, Dixon, P., Schumacher, J.) 51–76 (Saunders Elsevier, 2010).

AUTORA: M.V. LIZZIE DIETRICH

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2018-07-27T17:37:40+00:00