Desempenho dos leilões de equinos nos últimos 20 anos

Roberto Arruda de Souza Lima –  Professor da ESALQ/USP. Coordenador do Equonomia

 

Os leilões de equinos no Brasil, assim como em muitos países, não são exatamente o resultado das forças de mercado – oferta e demanda – que usualmente definem prelos de bens e serviços. Isto porque os leilões comportam outros dois tipos de vendas, além daquelas efetivamente de mercado. Existe a chamada defesa, quando o próprio ofertante (vendedor) adquire seu produto, de modo a evitar que o mesmo seja vendido para terceiros a um preço que considere abaixo do aceitável (considerando sua visão pessoal de valor, não a de mercado). Outra prática que distorce a formação de preços nos leilões de equinos são vendas previamente acertadas e que no leilão são simuladas para sugerir maior sucesso do evento. Entretanto, apesar dessas restrições, o histórico dos resultados dos leilões representa uma boa aproximação do que ocorre no mercado. Neste artigo será a presentada a evolução de dois principais indicadores dos leilões – renda obtida e preço médio por lote – nos últimos 20 anos, caracterizados por distintas fases de crescimento econômico e de crises econômicas.

O movimento dos leilões de equinos mostrou-se aquecido até o final da primeira década deste século. A crise mundial ocorrida em 2008, que ficou conhecida como crise do subprime (originário no mercado imobiliário e de títulos de crédito dos Estados Unidos) foi pouco contundente ao setor da equinocultura no Brasil. No período de 1998 a 2011, em valores reis (deflacionadas pelo IPCA) a renda obtida nos leilões saltou de R$ 94,95 milhões para R$ 572,45, um crescimento real de 500% em 13 anos (Figura 1). Entretanto, nos últimos seis anos, assumiu novo patamar, com cerca de R$ 415 milhões de renda tanto em 2016 quanto em 2017.

Figura 1: Evolução da renda de leilões de equinos, exceto PSI, em milhões de Reais de 2017, deflacionado pelo IPCA. Fonte: Elaborado a partir de dados da Revista DBO

 

A evolução verificada na renda anual foi resultado não apenas da variação na quantidade vendida, mas, também, nos preços médios dos lotes leiloados. Enquanto no final do século XX as médias eram inferiores a R$ 20 mil por lote, nas diferentes raças, algumas com valores bem inferiores a essa média, em 2017 verificou-se médias superiores a R$ 30 mil por lote, conforme ilustrado na Tabela 1.

Tabela 1: Evolução do preço médio por lote em leilões de equinos de quatro diferentes raças, em milhares de Reais de 2017, deflacionado pelo IPCA.

Fonte: Elaborado a partir de dados da Revista DBO.

As quatro raças – Quarto de Milha, Mangalarga Marchador, Crioulo e Mangalarga – que compõem a Tabela 1 representaram 97% da renda obtida em leilões no ano de 2017, excluindo a raça PSI (Figura 2). Esta divisão do mercado marca dois fatos: a força consolidada dos negócios na raça Quarto de Milha e o crescimento dos negócios na raça Mangalarga (participação mais que dobrou quando comparada às participações dos demais 19 anos do período analisado).

Figura 2: Participação de raças selecionadas na renda total obtida em leilões de equinos (excsto da raça PSI) no ano de 2017. Fonte: Elaborado a partir de dados da Revista DBO.

Até o final da primeira década do atual século, tanto as rendas quanto os preços médios por lote das quatro principais raças, em termos de renda obtida em leilões, apresentaram comportamento similares, crescendo ano após ano, em termos reais (Figuras 3 a 6). Entretanto, na última década os comportamentos se diferenciam.

Com os animais da raça Quarto de Milha, a renda e o preço médio por lote continuaram apresentação correlação positiva. Ambos cresceram até 2015, mas, nos anos da recente crise econômica (2016 e 2017), ambos decresceram (Figura 3). Entretanto, mesmo com esse comportamento negativo recente, o desempenho da raça foi muito bom, com patamares de renda e preços médios muito superiores ao verificados na década anterior (Figura 3), reforçando a imagem de força do Quarto de Milha no mercado.

Figura 3: Renda e preço médio por lote em leilões da raça Quarto de Milha. Em Reais de 2017, deflacionado pelo IPCA. Fonte: Elaborado a partir de dados da Revista DBO

O desempenho do cavalo Crioulo nos leilões mostrou que há certa resistência para elevação de preços. Entre 2009 e 2014 os preços pouco se alteraram, apesar do crescimento da renda verificado no mesmo período, demonstrando que havia demanda por esses animais. Aparentemente a recente crise econômica afetou fortemente a raça, com acentuada queda tanto na renda quanto nos preços médios a partir de 2013 (Figura 4). A boa notícia foi a recuperação no ano de 2017.

Figura 4: Renda e preço médio por lote em leilões da raça Crioulo. Em Reais de 2017, deflacionado pelo IPCA. Fonte: Elaborado a partir de dados da Revista DBO

Os leilões da raça Mangalarga Marchador mostram que, dentre as quatro raças discutidas neste artigo, foi a que mais refletiu o cenário macroeconômico. Nos momentos de crise (interna e internacional), os preços médios foram sensíveis, acompanhados de reações em menor intensidade, mas no mesmo sentido, da renda apurada em leilões (Figura 5).  O ponto positivo é a capacidade de recuperação após as quedas, evidenciada elo crescimento acentuada da renda após 2007 e pelo preço médio por lote alcançado no último ano (2017).

Figura 5: Renda e preço médio por lote em leilões da raça Mangalarga Marchador. Em Reais de 2017, deflacionado pelo IPCA. Fonte: Elaborado a partir de dados da Revista DBO

Entre as raças analisadas, o cavalo Mangalarga foi o que apresentou comportamento mais surpreendente. E positivo. Os impactos das turbulências da macroeconomia chegaram a afetar os preços médios por lote, mas não foram suficientes para impedir o bem desempenho nos valores apurados nos leilões (Figura 6). Durante o período analisado (1998 a 2017), os leilões da raça Mangalarga apresentou surpreendente crescimento médio de 5,1% ao ano na renda apurada (6,3% ao ano, se partir de 1999). Destaca-se, também, o crescimento de 46% verificado no preço médio dos lotes de 2016 para 2017.

Figura 6: Renda e preço médio por lote em leilões da raça Mangalarga. Em Reais de 2017, deflacionado pelo IPCA. Fonte: Elaborado a partir de dados da Revista DBO

O desempenho dos leilões de equinos verificado nos últimos 20 anos permitir verificar a força e potencial da equinocultura brasileira. É verdade que ocorreram impactos da macroeconomia nos resultados dos leilões, mas de forma mais suave do que a verificada em outros setores da economia brasileira. As diversas raças obtêm, atualmente, resultados, tanto em termos de renda quanto de preço médio por lote, muito superiores aos que eram óbitos nos anos iniciais do período analisado. Isto após importantes crises econômicas. Com a economia retornando à normalidade e retorno do crescimento econômico, é possível supor que a equinocultura responderá com resultados ainda melhores.

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2018-07-27T17:28:04+00:00