Cáries Periféricas em Equinos (Parte II): Dentes Incisivos e Caninos

Nesta edição será abordada a segunda e última parte do tema “Cáries Periféricas em Equinos”– Incisivos e Caninos. A incidência de cáries periféricas em dentes incisivos e caninos é menor quando comparadaàocorrência da lesão em pré-molares e molares.Isso talvez possa ser explicado pelo fato dos incisivos só realizarem apreensão e secçãodo alimentoe pelo fato da não ocorrência daimpactação de matéria orgânica nas depressões gengivais na mesma intensidade que ocorre nos dentes vestibulares.  No entanto, o seu diagnóstico precoce é de extrema importância para evitar complicações como fraturas, doença periodontal, infecção periapical e a perda prematura dos elementos dentários afetados.

A cárie nos incisivos pode apresentar diferentes localizações: no terço médio da face labial, secundária a pequenas falhas congênitas no cemento periférico; na região de inserção gengival, muitas vezesocultada pela deposição de cálculo; e no espaço interdental,secundária a erosão pericementária causada pela fermentação de alimentos ricos em carboidratos fermentáveis, como a cana de açúcar, impactados no espaço interproximal (diastema). Nos caninos ela também pode ocorrer nas mesmas localizações, porém, ela é mais comum na região de inserção gengival associadaà lesão de reabsorção causada pela infecção periodontal e endodônticacombinada (síndrome). Em alguns casospode estar correlacionada com a amputação parcial do canino (iatrogênica) e recobrimento total do dente por cálculo (Figura 01).

Figura 01: Imagens exemplificando diferentes tipos de cárie periférica em caninos. A: Cárie periférica na face lingual do dente 404. B: Cárie periférica na face labial do dente 404 com recobrimento gengival. C: Cárie periférica na face labial do dente 104. D: Cárie periférica na face labial do dente 404.

As cáries periféricas possuem sistema de graduação macroscópica adaptado a partir da classificação para as cáries humanas, criado por Honna (1962), e modificado por Dacre (2005).

  • Grau Zero: Nenhuma evidência macroscópica de cárie periférica.
  • Grau 1: dividido em 2 classes.
  • Grau 1 / Classe I: Lesões somente de cemento. Pequenas manchas a erosões superficiais (Figura 02).
  • Grau 1 / Classe II: Lesões extensas com ausência total do cemento em algumas áreas, expondo o esmalte adjacente) (Figura 03).
  • Grau 2: Lesões afetando o cemento e esmalte adjacentes (Figura 04).
  • Grau 3: Lesões afetando cemento, esmalte e dentina (Figura 05).
  • Grau 4: Lesões causando a perda da integridade do dente (fraturas secundárias e/ou infecção apical)(Figura 06).

Figura 02: Imagens exemplificando cáries periféricas de Grau 1/ Classe I. A: Erosão do cementoperiférico na face labial do dente 202, avaliada com explorador. B: Mancha e lesãopericementária na face labial do dente 201, avaliada com explorador.

Figura 03: Imagens exemplificando cáries periféricas de Grau I / Classe II. A: Lesão pericementária na face labial dodente 101. B:Imagemaproximada dacáriepericementáriademonstrando, com auxílio do explorador, o destacamento do cemento afetado. C:  Cárie pericementária na face labial do dente 102. D: Imagem aproximadada lesãopericementária após a remoção do cemento afetado.

Figura 04: Imagens exemplificando cárie periférica de Grau II. A: Lesão cariosa periférica envolvendocemento e esmalte na face labial do dente 201, próxima da inserção gengival. B: Imagem aproximadada cárie periférica avaliada com o exploradorapós a remoção do alimento impactado.

 

Figura 05: Imagens exemplificando cáries periféricas de Grau III. A: Lesãocariosa periférica afetando cemento, esmalte e dentina primária esecundária, na face oclusal e no espaços interdentais de todos osincisivos superiores.B: Lesão cariosa periférica afetando cemento, esmalte e dentina primária e secundária, na face oclusal e no espaços interdentais de todos os incisivos inferiores.

 

Figura 06: Imagens exemplificando cárie periférica de Grau IV. A: Fratura completa por lesão cariosa periférica. B: Imagem aproximada do dente 201 fraturado,com grande quantidade de alimento impactado e doença periodontal.

 

Descrição de caso clínico

Identificação e Histórico

Equino, macho castrado, Puro Sangue Lusitano, 15 anos, alimentado com dieta à base de concentrado (ração comercial) e feno. No entanto,conforme relatado pelo proprietário, o animal fica permanecia em piquete com vários pés de Manga, e segundo o mesmo, o animal comia muitas mangas na época de queda da fruta. A cárie peri cementária no incisivo foi diagnosticada durante o exame odontológico de rotina.

Exame Físico
À inspeção, o animal apresentava-se ligeiramente obeso. Na avaliação dos dentes incisivos foi observada deposição de cálculo junto a margem gengival dos incisivos superiores, onde foi diagnosticada cárie pericementária de grau II na face labial do dente 201 (Figura 7A).

Tratamento
Foi realizado o tratamento restaurador da cárie peri cementária do elemento dentário 201, com objetivo de evitar as complicações da
progressão da lesão cariosa (fratura e/ou doença endodôntica). Primeiramente foi realizada a remoção do tecido cariado e preparação da cavidade com curetas manuais e caneta de alta rotação. Foi realizado ataque ácido com ácido fosfórico a 37% (AcidGel ®) para melhor retenção do adesivo e material restaurador ao esmalte e dentina (Figuras 7C e D), e em seguida foi aplicado o adesivo (Adper ®) fotopolimerizável para melhor adesividade da resina (Figura 08 A). Na sequência, foi colocada a resina fotopolimerizável para realizar o preenchimento da cavitação (Figura 08 B e C). Ao término do preenchimento, é após a fotopolimerização da resina,foi realizado o polimento da restauração com broca de acabamento (Figura 09A e 09B).

Figura 07: Imagens demonstrando a cárie e o tratamento restaurador realizado. A: Cárie pericementária de grau II localizada na face labial do dente 201. B: Utilização da caneta de alta rotação para desgaste da cárie e preparo da cavitação. C: Aplicação do Ácido Fosfórico na cavitação com espátula para melhorar a retenção. D: Secagem da cavitação pronta para receber o adesivo.

Figura 08: Sequência de imagens do tratamento restaurador realizado. A: Aplicação do adesivo na cavitação. B: Aplicação com espátula do material restaurador. C: Fotopolimerização do material restaurador após a sua aplicação.

Figura 09: Imagens do dente 201 restaurado. A: Polimento da restauração com broca de acabamento. B: Aparência final do dente restaurado.

O proprietário foi orientado quanto a necessidade de alteração do manejo e dieta do animal (remoção do pomar de manga) com a intenção de evitar o desenvolvimento de nova lesão cariosa em outros elementos dentário. Também foi recomendada a realização da revisão odontológica anual. Nas visitas odontológicas que seguiram (03 visitas anuais) foi possível observar a manutenção do material restaurador ocluindo perfeitamente a cavitação, mesmo após 03 anos completos da realização da restauração (Figuras 10A e B).

Figura 10: Imagens do controle da restauração. A: Avaliação do dente 201 após 01 ano da realização da restauração. B: Avaliação do dente 201 após 03 anos da realização da restauração.

Considerações Finais

Apesar da incidência das cáries peri cementárias nos incisivos e caninos ser menor que a ocorrência nos pré-molares e molares, seu reconhecimento e diagnóstico nas fases iniciais é de extrema importância para evitar complicações como fratura dentária, exposição do canal e necrose pulpar.
A perda prematura de um ou vários incisivos em animais jovens e adultos, além de causar alterações de conformação na cavidade oral a médio prazo, tem impacto estético nos animais de passeio, esporte e de exposição, pelo fato de serem dentes com posicionamento frontal. Nos incisivos diferentemente do que ocorre nos pré-molares e molares, enquanto não há envolvimento endodôntico e alteração periapical,o tratamento restaurador das cáries periféricas de grau I e II é bastante efetivo na interrupção da lesão cariosa. O mesmo não acontece nos caninos onde o mais importante é evitar a cárie através da remoção do cálculo e combate à doença periodontal que, em alguns casos, pode ser a principal responsável pelas lesões de reabsorção. Outro fator importante na profilaxia dos caninos, é que a sua odonto plastia deve ser conservadora, impedindo assim a exposição pulpar, a deposição excessiva de cálculo e a doença periodontal. Assim como já foi exposto na primeira parte do artigo, dietas ricas em açúcares devem ser evitadas. O aumento da acidez na cavidade oral beneficia o aparecimento e a proliferação de bactérias acidogênicas no biofilme dentário, predispondo ao desenvolvimento de lesões cariosas periféricas devido à desmineralização e exposição dos tecidos dentários saudáveis.

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2018-07-27T17:25:10+00:00